Há uma linha subterrânea que liga a história política de Portugal e do Brasil, e ela é mais profunda do que a relação colonial entre os dois. O que une os destinos das duas nações não é apenas a língua, nem a cultura, nem o oceano que separa e conecta ao mesmo tempo. O elo real está na estrutura de poder que moldou ambas — e, sobretudo, na forma abrupta como essa estrutura foi interrompida.

Esse ponto raramente aparece em análises populares sobre a queda das monarquias. E, no entanto, quando o observamos com cuidado, ele explica quase tudo o que veio depois: as turbulências políticas, os ciclos de instabilidade, os golpes, os extremismos, e a dificuldade persistente que Brasil e Portugal tiveram — e continuam tendo — de estabilizar regimes republicanos.

A chave é simples: as monarquias ibéricas funcionavam.

O que não funcionou foi a ruptura brusca, desenraizada e sem transição.

Não há contradição em dizer isso. Não é necessário glorificar ou mitificar reis e imperadores para reconhecer que suas instituições — no contexto europeu e atlântico em que nasceram — eram estruturas que se encaixavam coerentemente em suas sociedades. A crítica séria e equilibrada da historiografia moderna é clara: a monarquia não ruiu por incapacidade, mas por precipitação.

Portugal e Brasil colapsaram porque o centro político que davam por garantido desapareceu de um dia para o outro.

A Monarquia Portuguesa: Continuidade, Coerência e Centralidade

Para entender o trauma da ruptura, é preciso partir do que existia antes. E, ao contrário das caricaturas, a monarquia portuguesa — especialmente desde a Dinastia de Avis — não era um regime decadente, nem um sistema obsoleto. Ela era:

  • estável,
  • centralizadora,
  • profissional,
  • adaptável,
  • e profundamente enraizada na vida política do país.

A historiografia de Rui Ramos, Oliveira Marques e Nuno Gonçalo Monteiro mostra que Avis foi uma dinastia de refundação: consolidou fronteiras, reorganizou a administração, estabilizou o reino após crises profundas e criou a lógica de serviço régio que formou elites durante séculos. O Estado português não se sustentou por acaso — sustentou-se porque sua monarquia articulava a sociedade de forma efetiva.

O que isso significa?

Que a unidade política de Portugal foi construída do centro para a periferia. O rei era o moderador, o fiador de acordos, o garantidor da estabilidade. As Cortes — com todas as suas limitações — funcionavam como lugar de encontro e pacto. A nobreza servia, a Igreja negociava, e a burocracia crescia.

Nesse modelo, o monarca não era um símbolo decorativo. Era o eixo.

Retire o eixo, e o sistema inteiro perde o equilíbrio.

A Monarquia Brasileira: A Continuidade Atlântica de Um Modelo Vitorioso

O Brasil não inventou sua monarquia. Ele a recebeu como herança institucional mais bem-sucedida da história portuguesa.

E, como mostram José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Mello e Oliveira Lima, soube preservá-la e adaptá-la surpreendentemente bem. O Império brasileiro:

  • garantiu a unidade territorial do maior país da América do Sul,
  • estabilizou politicamente uma sociedade jovem e heterogênea,
  • criou elites administrativas modernas,
  • manteve eleições regulares,
  • evitou guerras civis prolongadas,
  • e consolidou uma lógica de governo moderador que poucos países do continente conheceram.

O Poder Moderador, tão incompreendido nas narrativas populares, era exatamente a adaptação brasileira de um princípio português: a autoridade que resolve impasses e impede a fragmentação de facções.

Era, de certo modo, a alma ibérica da estabilidade — aplicada em escala continental.

Dizer que o Império do Brasil falhou é ignorar que nada que veio depois dele conseguiu alcançar o mesmo grau de continuidade institucional. O problema não estava no modelo; estava no fato de que ele foi encerrado antes da hora.

O Problema Não Foi o Regime — Foi o Colapso Rápido Demais

Aqui está o ponto central, que liga Portugal e Brasil de maneira quase simétrica:

As duas monarquias foram substituídas mais rápido do que suas sociedades eram capazes de absorver.

A república portuguesa nasceu de um golpe urbano, ideológico, com pouca participação real do país profundo. A república brasileira nasceu de um movimento militar, sem consulta popular, sem base social e sem arquitetura institucional pronta.

Em ambos os casos, não houve transição, não houve período de adaptação, não houve transferência gradual de autoridade.

Foi amputação, não reforma.

E amputações políticas — como qualquer amputação — deixam traumas.

Traumas que se repetem por décadas e que moldam a alma política de um povo.

Portugal 1910–1926: O Vazio Pós-Monárquico

Portugal perde seu eixo em 1910.

É como tirar a coluna vertebral de um edifício e esperar que as paredes se sustentem sozinhas.

A Primeira República não destrói o país — ela simplesmente não sabe o que fazer com ele. Sem um poder moderador, sem tradição de alternância, sem partidos sólidos, sem cultura republicana, o país mergulha em:

  • 45 governos,
  • 21 revoluções,
  • sucessivos golpes militares,
  • terrorismo político,
  • inflação e colapsos financeiros,
  • assassinatos.

Os próprios republicanos que fizeram o golpe reconhecem rapidamente o erro histórico.

O país perde uma estrutura centenária e, no seu lugar, recebe apenas facções.

Brasil 1889–1930: A Versão Antecipada do Mesmo Caos

O Brasil vive esse processo antes, como uma espécie de “ensaio geral” ibero-atlântico da instabilidade pós-monárquica.

A República de 1889 nasce sem povo, sem instituições, sem partidos treinados e sem elite civil preparada. Surge, como em Portugal, de um movimento militar, urbano, limitado ao Rio de Janeiro — e imediatamente enfrenta:

  • revoltas regionais,
  • revoltas militares,
  • guerra civil no Sul,
  • violência política,
  • instabilidade administrativa,
  • presidencialismo instável,
  • fragmentação oligárquica,
  • ausência de legitimidade.

Em poucos anos, o Brasil perde tudo aquilo que havia conquistado no século XIX: estabilidade, unidade política, continuidade administrativa, previsibilidade institucional.

Assim como Portugal teria seu “Estado Novo” para reorganizar o caos, o Brasil teria sua Era Vargas — ambos como tentativas de reconstrução de unidade após rupturas traumáticas.

A Estrutura Importava Mais que o Nome: o DNA Político Ibérico

O que Brasil e Portugal perderam não foi simplesmente a monarquia.

Eles perderam a estrutura ibérica de governação, construída ao longo de seis séculos:

  • moderação centralizada,
  • elites treinadas em serviço e não em facções,
  • Estado mais forte que grupos particulares,
  • continuidade administrativa,
  • unidade territorial como obra política,
  • e uma cultura de lealdade ao eixo institucional e não a partidos.

Essa estrutura não era medieval; era eficaz.

Ela não impedia a modernização; ela era a base dela.

E ela não estava condenada a entrar em colapso.

Ela foi interrompida de maneira abrupta.

Quando você destrói o centro sem preparar o entorno, o entorno implode.

Portugal e Brasil experimentaram esse fenômeno com poucas décadas de diferença.

Conclusão — Dois Povos, Um Mesmo Coração Político

Portugal e Brasil caminham hoje com instituições republicanas, mas carregam, na memória profunda, séculos de um modo diferente de organizar a vida política. Não é possível apagar isso. Cada povo tem sua arquitetura própria de estabilidade. A monarquia era a nossa.

A queda não destruiu apenas um regime.

Destruiu o mecanismo que nos dava equilíbrio.

Talvez, em algum momento da história, seja necessário revisitar não a forma, mas o espírito daquilo que funcionou. A república pode persistir, mas não precisa rejeitar as virtudes que a antecederam.

O mundo que virá exigirá raízes fortes.

E não há raiz mais antiga ou mais orgânica, para portugueses e brasileiros, do que aquela que nasceu sob a Cruz de Avis.

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